

Das Possíveis Manipulações de Mundos*
Este texto se coloca como uma tentativa de leitura e aproximação às proposições de sete artistas. São trabalhos que pensam as possíveis manipulações de mundos e imagens, de seus deslocamentos e retornos, das derivas e pausas, dos toques e contatos, das proliferações e mergulhos, das transfigurações e seus frutos, daquilo que permanece enquanto desejo. São convites como uma pequena bailarina que dança caprichosa frente ao nosso olhar.
Sim! Uma bailarina, ou mesmo um boneco articulado: ela gira sobre seu próprio eixo ao som de uma pequena caixa de música, ele se desloca por paisagens, as percorre animado pelos registros e manipulações de Yara Baungarten. É pelo princípio de manipulação que Baungarten articula seu trabalho, engendrando mundos através de fotografias e vídeos, tomando como ponto de partida esta possibilidade de transfiguração dos sentidos dados.
A manipulação surge assim como forma de operar um trabalho e como assunto mesmo deste. Como princípio de transformação, de passagem entre meios e linguagens. Do teatro para as fotografias, das fotos para a edição de vídeo e deste para a estrutura do storyboard, timelines e overlays, tornando evidente, dessa forma, a própria estrutura da montagem. Esta se evidencia em camadas de trabalho: entrecruzamento, transformação, montagem, recorte, escolha e colagem como conceitos operativos agindo no interior do trabalho. Provoca-nos a refletir sobre o que se agrega e o que se perde nestes trânsitos.
Igualmente em trânsito, em encontros, buscas, consultas, endereçamentos, Igor Sperotto nos introduz em uma aventura que pressupõe deslocamento e fé. Trata-se de um trabalho em devir, o estatuto do sujeito em uma condição de potência transformadora de si em relação ao outro. Esta rara habilidade de estar permeável e em diálogo com o que nos cerca.
A partir de questões lançadas em forma de consulta a oráculos, Sperotto elaborou uma espécie de roteiro de ações que culminaram no envio de uma garrafa pelo Arroio Dilúvio até desaguar no Guaíba. No correr desta intervenção o artista desenvolve uma cartografia particular, e nesta Sperotto nos apresenta o seu reconhecimento da cidade por aquilo que nos toca ou nos separa. Uma percepção da cidade com todos os sentidos, demarcando uma aproximação sensível e afetiva.
O percurso que surge marcado posteriormente nos mapas, nos reporta à imagem da vida como estado transitório, um estar entre-lugares, não estando em um lugar definido.
Os percursos também vibram na poética de Tainara Becker, ela se lança pelas ruas da cidade de Porto Alegre, em busca daquilo que pode encontrar em seu caminho. O acaso é o que direciona seu deslocamento, produz desvios, incorpora o inesperado até esbarrar com o resíduo que se acumula dia após dia em nossas cidades.
É na busca pelo que sobeja, por aquilo que é descartado ou perdido, que Becker funda seu trabalho. Os signos desta busca são variados, são objetos que funcionam como pretexto para nos colocar em trânsito juntamente com a artista. Um deslocamento que se interrompe pelo encontro da câmera de vídeo com este achado que ainda retém, por algum momento, os indícios de um uso ou da identidade de seu antigo dono.
Em sua procura aleatória pelas sobras de nossa sociedade Becker funda este lugar do encontro fortuito, demarcando igualmente o lugar do fazer artístico como este da inconstância e instabilidade, uma freqüente procura por interlocução e reconhecimento.
O lugar que Carolina Rochefort nos propõe é este da aproximação, do olhar de perto em que o nosso horizonte se define pela superfície epitelial. Aqui a pele surge como inscrição de uma memória, a partir de uma vivência que deixa traços, do tempo que se deposita como marcas. Pele como película de passagem entre um universo interior, constituído pelo sujeito, e o exterior feito pelo mundo.
Rochefort aponta para a importância do contato, colocando em jogo um princípio de trocas de temperatura, de fluídos, de energia, de conhecimento. É no toque que o outro processa o mundo em nós. Neste sentido as transformações não se dão apenas a nível da superfície da pele, mas sobretudo na subjetividade do sujeito que percebe esta aproximação.
Como em um processo de sedimentação lento, ou de erosão desacelerada, a pele trabalha, se molda àquilo que vivemos. Uma espécie de superfície de leitura, um livro que se revela pelo toque. Ler a pele pressupõe intimidade, um olhar que tateia para reconhecer o outro.
Da proliferação e contaminação, do embaralhamento com as imagens de insetos se alimentam as proposições poéticas de Luciana Giacomelli. É da manipulação daquilo que é abjeto e sua reinserção no cotidiano que Giacomelli exerce sua intervenção. Esta se desdobra sob forma de adesivos ou de um objeto suspenso, conformado como um dodecaedro espelhado em seu interior e contendo a imagem de um escaravelho impressa em suas faces internas, que nos convida a uma experiência imersiva.
Tanto na intervenção dos adesivos com imagens de baratas, quanto na peça do dodecaedro, a artista nos coloca em relação aquilo que nos causa horror, mas que também produz encantamento. É com esta duplicidade de sensações que o trabalho opera, oscilando entre estes pontos extremos. Indica ao mesmo tempo uma brincadeira pueril e este olhar atento que nos impele a pensar nos insetos como reflexos da nossa própria miséria, da nossa condição como seres igualmente precários e em freqüente transmutação.
Espelhamento e transfiguração também são idéias que permeiam a produção de Ida Helena Thon. A partir de fotografias de árvores, galhos e folhas, Thon desenvolve todo um léxico de imagens espelhadas e rebatidas pela manipulação digital. São fotografias que nos apresentam suas aproximações à paisagem que cerca seu universo particular: uma árvore que acompanha o crescimento, a passagem do tempo marcado pelo registro do ciclo das estações nos galhos das árvores.
A artista, porém, não apresenta estas imagens apenas como registros diretos de uma dada realidade, mas transforma-os, através de sua interferência via computador, em outras imagens, diversas destas que serviram como referência inicial. Produzindo assim, máscaras, seres vegetais, teias, tramas que nos remetem à infinita capacidade de ressignificar aquilo que encontramos pronto nas imagens que produzimos ou tomamos do mundo.
Imagens da natureza aparecem no trabalho que Renata Stoduto aqui apresenta. 2x4xtempo faz apropriação de recursos fotográficos analógicos, o filme em película de
*por Glaucis de Morais, mestre em artes visuais e professora da Feevale

"Imagens captadas em espetáculos de Teatro de Bonecos, quando o momento de dilatação de personagens e manipuladores fica fixado pelo registro fotográfico. As manipulações digitais conferem narratividade à ficção temporal."

Fotografia
2002 a 2009


Fotografia
40 x 60 cm
1996 - 2009
